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Golfe e negócios

Golfe e negócios

Publicado em 31 de Janeiro de 2011 às 23:00

Aversão à perda no golfe e nos negócios

Golfe e Negócios

Num trabalho intitulado “Será que Tiger Woods é avesso a perdas?”, Devin Pope e Maurice Schweitzer, professores de gestão de operações e de informações da Universidade de Wharton, Pennsylvania, USA, analisaram as tacadas dadas em torneios profissionais de golfe. Os autores concluíram que os melhores jogadores de golfe perdem, sistematicamente, a oportunidade de alcançar um birdie por medo de um bogey. De acordo com os pesquisadores, para muitos jogadores sejam eles profissionais ou não, a agonia de um bogey parece superar a emoção de um birdie.

Ao que tudo indica, Tiger Woods e outros super astros do golfe mundial que disputam partidas milionárias em tacadas de alguns metros apenas, estão sujeitos ao mesmo temor e aversão ao risco que costuma afligir investidores e gerentes.

Trilhar um caminho seguro, porém, tem seu custo. Os autores acreditam que essa predisposição custe ao jogador profissional mediano de golfe aproximadamente uma pancada num torneio de 72 buracos. No caso dos 20 maiores profissionais isto significa um prejuízo total de cerca de US$ 1,2M em pryze moneys.

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De acordo com a pesquisa, os jogadores calculam suas tacadas com base no risco de não terem um bom desempenho no par. Pope e Schweitzer demonstram que os jogadores evitam a possibilidade de perda jogando de forma conservadora quando têm a possibilidade de ficar acima do par, porém correm mais riscos se perceberem que podem ficar abaixo dele.

Pope diz que o estudo explora a “aversão à perda”, uma predisposição nas tomadas de decisões que é um elemento de extrema importância no campo da economia comportamental. Esse ramo da economia explora a maneira pela qual a psicologia humana influencia os mercados e as empresas. “A pesquisa mostra que as pessoas trabalham com mais afinco para evitar perdas”, diz Pope.

As descobertas do estudo desafiam as teorias segundo as quais as predisposições nas tomadas de decisões não têm vida longa nos mercados e que, quando existem, tendem a desaparecer com a concorrência, com grandes riscos e com a experiência. Que lugar melhor para analisar essa teoria do que o mundo competitivo e dos altos pryze moneys da PGA Tour, pensaram.

O estudo revela predisposições de julgamento num cenário de alto risco por onde circulam especialistas”, diz Schweitzer. “A conclusão é a seguinte: se Tiger Woods se deixa dominar por uma certa predisposição quando joga, que esperança temos nós?”, graceja Pope.

O quadrado terrível

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Muita gente acredita que os profissionais não demonstram qualquer tipo de predisposição nas suas áreas de especialização, o que já não aconteceria com uma pessoa sem experiência nenhuma numa área de especialização específica, diz Pope. “As pessoas acham que os CEOs têm menos predisposições do que os seus colaboradores, o que talvez seja verdade, mas isso não significa que eles também não tenham as suas inclinações próprias.”

Todos os anos, o circuito da PGA Tour é dividido entre 40 a 50 torneios individuais em que cerca de 150 jogadores competem. Os torneios de quatro dias pagam, em média, um total de aproximadamente US$ 6M em 2010, sendo que dois terços dos jogadores com melhor desempenho dividem parte do prémio, enquanto o vencedor normalmente embolsa 18%.

Os dados foram compilados por cerca de 250 trabalhadores contratados pela PGA Tour para colher informações detalhadas sobre os vários torneios. Para obter os dados, as partidas são monitorizadas por lasers instalados à volta de cada buraco dos percursos. Eles medem e registam, as coordenadas de cada bola depois de cada tacada. Pope e Schweitzer utilizaram dados de 239 torneios realizados entre 2004 e 2009, concentrando-se em 2,5 milhões de tacadas dadas por 421 profissionais tendo cada um deles dado pelo menos 1.000 tacadas.

Para analisar especificamente a aversão à perda, os pesquisadores examinaram as tacadas no contexto do par atribuído a cada buraco. De acordo com eles, o número do par cria um ponto de referência que distingue claramente a perda do ganho. Nos seus cartões de marcação, os jogadores circulam os buracos que embocaram abaixo do par. Se marcaram acima do par, a pontuação é feita num quadrado. “Embora os jogadores se devessem preocupar apenas com a pontuação geral no torneio, eles podem ser influenciados pelo ponto de referência do par na hora em que dão as suas tacadas. O par chama a atenção, mas pelas regras é irrelevante”, observam os autores.

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A maior parte das tacadas foi de par (47%) ou de birdie (39,8%). A estratégia adoptada para cada buraco pelos jogadores, em relação ao par, fornece um meio para medir a aversão à perda. Pope e Schweitzer usaram dados para determinar se um jogador estava jogando com cautela ao dar uma tacada que levaria a bola exactamente para perto do buraco, de modo que sua próxima tacada fosse certeira. Usando dados para medir a força de uma tacada e a posição da bola antes da tacada, concluíram que, em média, os jogadores dão as suas tacadas em busca de birdies numa frequência aproximada de dois pontos percentuais a menos em relação às tacadas de par. “Essa descoberta é coerente com a aversão à perda, pois os jogadores concentram-se mais quando jogam para o par para evitar perdas”, observam.

Esse comportamento reflecte a predisposição para evitar perdas, que nesse caso ocorre quando o jogador perde um par e marca um bogey, em detrimento da possibilidade do melhor score de todo o torneio, o que, em última análise, é o que importa. “A aversão à perda consiste no erro sistemático de segregar ganhos e perdas, avaliando-se as decisões isoladamente, em vez de agregá-las, e de sobrevalorizar as perdas em relação aos ganhos.”

No contexto dos negócios, o par pode ser comparado aos ganhos trimestrais ou à estratégia de venda dos investidores, ou à manutenção das acções, dependendo de quanto se pagou por elas inicialmente. “No golfe, os jogadores avaliam seu desempenho com base em cada buraco, e não com base no seu desempenho geral”, dizem os autores. “Nos negócios, as pessoas avaliam seu desempenho com base em um trimestre específico, ou em como uma acção específica se comportou, ou de que maneira uma conta em especial se comportou. As pessoas erram quando analisam decisões correlatas de forma independente.”

Mais observam que os resultados de sua pesquisa estão de acordo com a Teoria da Perspectiva, um conceito económico importante desenvolvido pelos psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky, em 1979. De acordo com essa teoria, as pessoas sentem maior aversão ao risco quando têm ganhos do que quando correm o risco de sofrer uma perda. Em sintonia com essa teoria, “se o jogador profissional de golfe recorre ao par como referência, deverá ser mais cauteloso nas tacadas na procura de um birdie do que nas tacadas na procura do par. Especificamente, em relação à perda de uma tacada, constatamos que os jogadores acertam com menos dificuldade as tacadas de birdie do que as de par [...] Mostramos que os jogadores sacrificam o sucesso quando jogam por um birdie para evitar outras tacadas que sejam difíceis”. Além disso, esse padrão de comportamento “diminui os lucros esperados” para os jogadores, conclui o estudo.

Excesso de confiança e nervosismo

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Os autores procuraram evitar obstáculos ao seu estudo controlando inúmeras variáveis. Nas suas análises, controlaram, por exemplo, a posição da bola no green próximo do buraco, verificaram se o jogador é melhor com o Driver do que com o Putter, se o facto de o jogador estar repetidamente numa área próxima a um buraco específico altera seu comportamento, quais as suas reacções emocionais a essa experiência, etc.

Eles também incluíram as explicações psicológicas, inclusive o excesso de confiança e o nervosismo. Para testar o excesso de confiança, questionaram se depois de uma tacada bem dada os jogadores se deixam levar por um “excesso de confiança e se eles se tornaram arrogantes de um modo tal que lhes tenha prejudicado a sua tacada seguinte”. Contudo, e este é um dado extremamente interessante, os dados mostram que quando os jogadores finalizam um buraco com uma tacada a menos em relação à média, é provável que precisem de menos tacadas do que a média no próximo buraco. “Exceptuando-se, assim, a aversão ao risco”, observam os autores.

Em relação ao nervosismo, o estudo propõe a ideia de que os jogadores valorizam uma tacada na procura de um birdie mais do que o par, e que podem ficar nervosos e “sufocados” na ânsia desse birdie. A pesquisa constatou que, embora os jogadores amadores de golfe raramente procurem o birdie, os profissionais tentam conseguir tantos birdies quanto shots para par. Mesmo quando um birdie bem-sucedido ou um par, podem colocar os jogadores em posição semelhante, ainda assim, os amadores optam pela procura do par no buraco seguinte. 

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 “Em primeiro lugar”, diz o estudo ainda relativamente à questão do nervosismo, “os jogadores dão tacadas mais curtas na procura de um birdie em comparação com outras com o objectivo de par. Em segundo lugar, mostramos que mesmo os melhores jogadores, inclusive Tiger Woods, apresentam essa tendência nas primeiras rondas do torneio. Em terceiro lugar, a diferença entre as tacadas de par e de birdie diminuem conforme o torneio vai evoluindo.

Por fim, além da análise quantitativa, os autores citam exemplos práticos do próprio Tiger Woods. Depois de uma rodada em 2007, o profissional com maior número de vitórias da PGA disse: “Acho que bons shots de par são mais importantes do que os de birdie. Ninguém quer perder uma pancada. Há uma diferença, no plano psicológico, entre perder uma pancada e fazer um birdie. Para mim, o par é mais importante.

Os autores salientam que o golfe já foi objecto de outras pesquisas económicas recentes, e que consideram não terem sido pioneiros nesta abordagem, mas que estavam interessados em explorar o assunto novamente, devido à riqueza e variedade de dados existentes na PGA Tour.

Embora Pope não jogue golfe e Schweitzer o faça apenas esporadicamente, dizem que o assunto era o mais adequado aos seus objectivos de pesquisa. “Trata-se de um domínio rico para estudos de tomadas individuais de decisão. Temos dados que medem os resultados de centenas de milhares de decisões similares feitas por indivíduos talentosos, experientes e extremamente motivados, pelo que o golfe”.